sexta-feira, setembro 24, 2004


Rodolfo, a rena assassina



Era um cronista afamado, senhor de sobejos argumentos e abundantes enredos. As ideias vinham-lhe em jorro, amiúde mais rápido que a própria sombra. Cronicava compulsivamente, em qualquer lugar e em qualquer momento, com tamanho espírito de missão que tocava o sofrimento, como lhe lembrava mansamente a legítima sempre que via o débito conjugal afectado pela necessidade de pausar para um apontamento.

Mesmo enquanto dormia, sonhava por escrito e acordava com fragmentos, fiapos de histórias, esboços que rapidamente passava à pena. Ou à caneta. Ou à tecla, o meio era irrelevante. Nunca nenhum editor tinha tido necessidade de o pressionar com um deadline, o cronista afamado tinha em arquivo material suficiente para bater os classificados ao metro quadrado.

Até ao dia em que lhe surgiu pela frente Rodolfo, a rena assassina. Ia no carro quando o título lhe entrou pára-brisas adentro: Rodolfo, a rena assassina. Que título sublime! E ao ritmo do ronronar do motor, foi-se tornando de sublime em subliminar: Quem era verdadeiramente Rodolfo? Qual o móbil do seu - certamente hediondo - crime? E o modus operandi? As respostas escapavam-se-lhe movediças, ilusivas, deixando apenas o título. O excelente título. O título dos títulos. A mãe de todos os títulos.

Nunca mais conseguiu cronicar, o afamado cronista. Passou a ser (des)conhecido como o esquecido cronista. Hoje o seu fantasma assombra as redacções dos jornais, um vulto sussurrante curvado em ponto de interrogação, num cicio que se confunde com o murmúrio dos ares condicionados: Rodolfo, a rena assassina, Rodolfo, a rena assassina, Rodolfo, a rena assassina...